Banda Harmada

28 June 2010 by Eder Albergoni

Há algum tempo recebi via internet um punhado de músicas de uma banda carioca chamada Polar. Destacavam-se as letras singulares cheias de sentimento, os arranjos bem montados a fim de comportar tamanha vivacidade, que extrapolavam em cinco músicas e o tom certeiro da melancolia misturada com alguma nostalgia do que ainda não tinha acontecido. A Polar foi sem dúvida uma das bandas mais importantes do Rio de Janeiro nesse tempo. Eis que ultimamente fui lembrado da nova banda do vocalista Manoel Magalhães. E a Harmada está ai e vem com tudo.

Não que o tempo tenha mudado de todo as influências e a forma de pensar no mundo ao seu redor, mas Manoel conta com certa coragem ao tratar de maneira absolutamente inteligente os sentimentos que vive, bem como aquilo que o cerca. Insisto, em tempos de muitas cores amontoadas numa poça de nada, ter cabeças pensantes como a de Manoel fazendo música, é quase um milagre.

Na Harmada tudo soa fresco em relação a Polar, visto que tal comparação vai sempre existir, porém, quem poderia falar melhor sobre isso que a própria banda?

Entrevistamos Manoel Magalhães e Juliana Goulart, com a ajuda da amiga Maely Magalhães (que não é, mas queria ser parente).

Pergunta: Manoel, a Harmada está há pelo menos dois anos preparando seu primeiro disco. Qual a maior dificuldade em se fazer um disco independente nessa época de tanta tecnologia disponível e que diferencial essa tecnologia pode trazer a favor das bandas independentes?

Resposta: Eu acho que essa demora toda não foi desejada, mas acabou sendo necessária. Talvez depois da ansiedade de terminar, finalmente conseguimos ficar mais relaxados e estamos aproveitando melhor essa reta final do disco.

Sobre a tecnologia, eu não sou ingênuo de dizer que não muda nada, muda tudo na verdade, muito mais gente pode fazer música e o filtro vai ficando cada vez mais confuso, ou mais específico, talvez. Qualquer um grava um disco em casa hoje, com músicas boas ou ruins, bem ou mal gravadas, mas grava e com relativa facilidade. A grande revolução nessa história, eu acho, é o meio de divulgar a música. A internet iguala os espaços e mesmo que alguém invista muito dinheiro em divulgação, o retorno não é nada garantido, como um dia já foi. E aí o cara que tem uma idéia legal e não investe nada, pode conseguir alcançar um público muito grande.

Por mais engraçado que pareça, o foco do debate não fica na produção musical como todo mundo espera, fica na questão publicitária, de marketing mesmo. Eu acho essa a grande ironia dessa virada de século. Nunca ouvi Lady Gaga direito na vida, mas pelo que parece não é nenhuma revolução musical, o papo que levam sobre ela é sobre como saber se vender, essa articulação toda que hoje se espera de um artista: sabe fazer clipe, que hoje virou uma tradução do vídeo publicitário para o Youtube, o que dizem que ela faz muito bem. Essa transposição que pouca gente sacou, o artista parece que está virando uma espécie de release de si mesmo.  Mas falando da Harmada, eu vejo as coisas muito em uma escala artesanal, aliás, é a única forma que eu consigo ver a produção artística diferente hoje em dia, acho que queremos realizar um disco diferente, que realmente signifique alguma coisa pra gente, mas um disco um pouco alheio ao seu tempo, esquecendo em um primeiro momento a tecnologia, a internet, todo esse papo pós anos 90, vamos deixar isso tudo para uma fase posterior ao disco, acho que o Música Vulgar para Corações Surdos é um disco estranho hoje em dia, porque ao mesmo tempo em que fala sobre como é o cotidiano sentimental de alguém que vive em 2010, não reflete a escala de produção de discos dessa época.

Vai ver por isso demorou tanto, as composições foram fragmentadas, de processo demorado, um disco que não teve camadas de instrumentos ou músicos adicionais, só a banda tocando mesmo, do jeito mais direto que dá pra fazer, só que esse é o jeito mais complicado hoje em dia também.

Pergunta: A maior parte dos ansiosos fãs que aguardam a volta à estrada é formada por “órfãos” da Polar. Como ficou seu relacionamento com os fãs depois do fim da Polar e até onde você acha positiva a relação mais próxima entre artista e público (já que muitos artistas estão se aproximando mais, principalmente através de redes como o twitter)?

Resposta: Muita gente continuou presente, outros dispersaram. Eu acho natural, até porque a Polar acabou em 2006 e a expectativa por um novo projeto foi imediata. Eu confesso que até queria ter correspondido a isso e lançado algo lá naquela época, mas hoje olhando o passado com a perspectiva do tempo, tenho certeza que seria impossível e não soaria honesto da minha parte. Acho que a Harmada demorou muito tempo pra terminar esse disco, mais do que eu esperava, e o que me deixa muito feliz e esperançoso é pensar que bastante gente resistiu a esse hiato e quer ver o disco pronto, é importante essa sensação de que a sua música faz diferença pra alguém. Sou orgulhoso dos fãs que a Polar tinha, e principalmente, dos que permanecem acompanhando esse processo do disco da Harmada. Sobre essa questão da proximidade, eu acho muito interessante quando o campo é esse da internet, das redes sociais, de alguma forma humaniza a arte, aproxima o artista do público, eliminando o filtro dos meios de comunicação de massa. Em 1995 era impossível ter a mínima noção de como era o cotidiano das pessoas que eu admirava, e hoje com o twitter, a informação ta ali, sem passar por nenhum jornalista ou veículo, é um papo direto de quem te interessa. Só acho também que saber do que acontece é uma coisa, ter intimidade é outra. As pessoas precisam sacar a sutileza que é respeitar o espaço dos outros, mas no geral acho toda essa transformação muito interessante.

Pergunta: A resenha da Harmada é um texto bem forte, assim como as letras das cinco músicas já liberadas para o público. O que mais podemos esperar?

Resposta: Sinceridade. O MVCS é um disco de idas e vindas, tropeços, momentos de extrema euforia e de desânimo e quase ruptura. Eu passei por um longo buraco pra chegar até aqui e acho demais que as pessoas sobreviveram a isso. Mas o balanço que posso fazer dessa história é que esse disco é uma grande coleção de sonhos e fracassos, com toda beleza que existe nisso, as músicas são pequenos recortes do cotidiano que observei de 2006 pra cá. Amores de mãe, suicídios, traições, despedidas, patologias emocionais, ansiedade. Tudo de mais humano que pode existir.

Pergunta: Ter uma mulher na bateria muda sua maneira de compor? Você compõe pensando na maneira que os outros músicos vão te acompanhar?

Resposta: Acho que não muda a maneira de compor, e no caso da Juliana, não muda nem a maneira como o ensaio acontece. Ela é um doce e consegue levar na boa todas as bobagens que a gente fala. Sobre essa questão dos músicos, acho que muita coisa acaba mudando mais pela forma que eu crio as músicas, que são todas compostas em um violão de nylon e nunca ficam com a cara de uma banda de rock, aí esse processo de transposição pode ser mais coletivo. A gente toca e vai sentindo como a coisa caminha, cada um dando uma opinião diferente.

Pergunta: Você mantém um blog, o Chelsea Nights, que também é muito elogiado pelos leitores. O que te faz ter vontade de escrever?

Resposta: O próprio exercício de escrever, que é um meio de pensar no que se faz, ao mesmo tempo em que se deseja o futuro. É uma projeção do inconsciente. Por ali me vejo em outra perspectiva e posso expor coisas que não seriam possíveis de outra maneira. Eu leio os textos antigos e não me reconheço em boa parte, mas não no sentido de achar que sou outra pessoa, muito pelo contrário, no sentido de conseguir ler o texto sem o peso de quem participa. Eu tenho muito orgulho do blog, são quase cinco anos em um espaço onde geralmente as coisas não duram um mês, e sigo com ele sem falar da vida dos outros ou de qualquer assunto específico. Não vejo muitos exemplos disso por aí. Tenho algumas idéias para os próximos cinco anos, de como melhorar o que eu faço por lá, de formas de expandir o alcance do Chelsea Nights, que é um blog mais para quem é fiel a ele, quem acompanha sempre, do que para qualquer visitante desavisado. Isso complica um pouco um avanço, mas ao mesmo tempo é um desafio que me anima muito.

Pergunta: A Polar fez parceria com a cantora Vivian Benford e foi muito bem recebida pelo público. Podemos esperar alguma outra parceria para a Harmada?

Resposta: A Vivian é uma grande amiga, sempre está por perto, gravou músicas minhas no seu disco solo, foi muito natural a sua proximidade. Faremos alguns shows conjuntos ainda, com certeza. Já no disco da Harmada as participações não cabiam muito. Optamos por uma linguagem de banda, só os quatro tocando, sem dobrar nada, tudo muito direto. Essa é a tônica do disco, aliás. De diferente só o trompete do Jessé Sadock em Luz Fria e talvez a narração do Guilherme Weber, que até agora é só um delírio meu.

Pergunta: Vocês conhecem e /ou apóiam o movimento “Música Para Baixar”? O que acham da iniciativa que tem como idealizadores Leoni  e  O Teatro Mágico? O que é preciso para que mais artistas se tornem parte do movimento ? (http://musicaparabaixar.org.br/?p=203)

Resposta: Não conheço bem o projeto, mas apoio qualquer iniciativa nesse sentido. Uma das coisas que a gente faz questão com esse disco é liberar tudo para download. Não sou idiota, e também acho que assim como as pessoas pagam por pão, hospital e escola, devem pagar por música, só acredito que pagar por mp3 não passa nem perto disso. O buraco é muito mais embaixo. Mp3, na minha opinião, não é um produto à altura de pão, hospital e escola, música é. Como pagar por música hoje em dia? Acho que ninguém sabe ainda.

Pergunta: Foram liberadas quatro músicas no site da Oi Novo Som, muitíssimo elogiadas pelos fãs. Como foi feita a escolha das primeiras faixas para divulgar?

Resposta: Da forma mais prosaica possível. Foram as que ficaram mais bem acabadas até agora.

Pergunta: Finalmente, a pergunta que não quer calar: Previsão pro lançamento do disco da Harmada?

Resposta: Olha, pra não correr o risco de cair na falsa promessa, eu chutaria até dezembro desse ano. Pode ser muito antes até, mas disso eu acho que não passa. Só que a diferença agora é que a movimentação da banda será mais intensa, com shows, entrevistas, participações em programas, viagens pra outros estados, a Harmada daqui pra frente não para mais.

Pergunta: Juliana, o que faz uma mulher se apaixonar pela bateria?

Resposta: Acho que pelo mesmo motivo que faz alguém se apaixonar por qualquer instrumento, pessoa ou coisa…  sentir. Você não toca o instrumento, é ele que te toca, crua e literalmente. Eu me reconheci na bateria pela batida, pela pegada, pelo som pesado e leve ao mesmo tempo. Pelas inúmeras possibilidades que ela me oferece. Porque quando estou tocando me sinto completa; consigo extravasar tudo o que está dentro de mim e ela me corresponde.

Confesso que foi complicado entrar em um mundo predominantemente masculino. Todos têm conceitos pré-estabelecidos da bateria como um instrumento pesado e que deve ser tocado de tal maneira. Acho até que muitos estranham uma mulher ali, naquele lugar tão forte. Mas são muitos anos de dedicação e, com a ajuda de algumas almofadas, acho que me saí muito bem, obrigada!

Pergunta: Existem bandas muito boas no underground carioca atualmente.  Como é fazer rock numa cidade tão pluralista musicalmente?

Resposta: Fascinante! Cada esquina do Rio de Janeiro tem um som e uma cor diferente. Você pode ir do rock ao samba, do jazz à mpb, o que acho extremamente importante para a formação musical de qualquer um: a oportunidade de ter de tudo um pouco.

De ser influenciado e criar novas influências a partir de um cara tocando sax em plena Praça XV. O cenário underground carioca cresceu bastante, é verdade. Se tornou muito mais acessível com a massificação da internet, mas é uma pena que muita gente ainda esteja alheia à toda essa cultura independente. É muito mais fácil simplesmente pegar algo que lhe é entregue de bandeja do que procurar uma banda maravilhosa de blues que toca em um bar escondido na Lapa. Espero que isso mude. E essa é uma das ambições de “Música Vulgar Para Corações Surdos”: inspirar todos que amam fazer música de verdade e alimentar o sonho de cada garoto e sua guitarra.

Pergunta: Como é juntar as influências de cada um até sair o resultado final para as músicas? Até onde as influências de um interfere na maneira do outro tocar ou de compor a música?

Resposta: É a diversidade que faz a Harmada ser o que é. Conseguimos ir do metal à bossa nova, o que é maravilhoso. Uma junção de influências tão distintas que convergem e se unem, criando um som único e que mostra um pouco de cada integrante. Acho que não interfere e sim acrescenta, moldando a batida pesada de um, ao som leve de outro, fazendo com que cada música seja especial para vocês que ouvem e para a gente que faz.

Músicas: http://www.oinovosom.com.br/harmada

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Eder Albergoni

Eder Albergoni, 26 pra 27. Eder é assim mesmo sem acento.

Escreve no “Pró-Apocalipse” (http://proapocalipse.wordpress.com) e no “Num Círculo de Giz” (http://circulodegiz.wordpress.com)

É de Gêmeos com ascendente em Peixes. Seu regente é Mercúrio e o número da sorte é 12.

Contato: er.albergoni@gmail.com

http://twitter.com/eder_a



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