Melhores Discos Nacionais de 2011

11 janeiro 2012 by Eder Albergoni

A gente sabe que quantidade não é sinônimo ou indica qualidade. Muito menos a indicação se dá por conta do hype ou da polêmica. 2011 no cenário nacional sustentou uma discussão tão antiga quanto o tempo da música radiofônica de massa. De lá pra cá fomos convencidos de alguma forma a acreditar no hype. E então, no meio de tantas denominações de um jeito de ouvir música ou de gosto, perdemos a essência do que realmente a música significa. Será?

Salva-se a imparcialidade de admitir o próprio mau gosto quando esse é inegável. Abaixo a isenção.

 

10. Nó na Orelha – Criolo

De hype em hype, a menção da qualidade de Criolo se dá por meio da insistência,. Aquela história de vencer pelo cansaço alheio. Não que isso diminua a qualidade do trabalho e e os tapas no pé da orelha da sociedade. Não Existe Amor em SP é síntese de tudo o que o disco quer dizer. Não há nada em Nó na Orelha que resuma e explique melhor, mesmo que Subirusdoistiozin, Freguês da Meia-Noite, Grajauex e Sucrilhos exerçam a utilidade de cada uma como razão da força do disco. Indicado pra quem nasceu, foi criado e cresceu com sucrilhos no prato e até hoje acredita no hype.

 

09. A Coruja e o Coração – Tiê

Você olha pra Tiê de pertinho e fica pensando se ela quebra ou se ela é extensão da música que canta. Porque ao ouvir o disco todas as raivas somem, o ambiente fica quentinho, a gente canta “ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah” sem vergonha nenhuma no meio de gente que a gente não conhece no metrô às 7 da manhã tentando se apertar num vagão…

A alegria contrastante a Sweet Jardim, primeiro disco de Tiê, é tão surpreendente que  alavanca uma novidade maior do que a expectativa espera. Cada música traz uma sutileza a mais que garante leveza ao álbum. Se Na Varanda da Liz não for suficiente pra já de cara te encher de alegria, vá ao médico porque há algum problema no seu coração. A coruja continua piando em Só Sei Dançar com Você e Mapa Mundi, canções dos amigos Tulipa e Thiago, e na sensacionais Hide and Seek e Pra Alegrar o Meu Dia. E o que poderia ser interpretado como oportunidade se revela criatividade na regravação do sucesso Você Não Vale Nada.

Tiê e A Coruja e o Coração não são só fofinhos.

 

08. Parece Que Foi Ontem – Vera Loca

A melhor banda dos pampas fez um disco muito bom. Cheio de simplicidade e verdade. Usando da boa e velha fórmula de Vera Loca III, mas diferente na forma. identidade é palavra chave. Se você ouve a faixa título sabe que é uma música da Vera Loca. As letras são cheias de esperança, convidativas. Retratam um cotidiano desacostumado apesar dos temas serem conhecidos por todos nós. Cuidado Ana, por exemplo, é um aviso dos mais atenciosos. Advertem: “cuidado com o que você pede”.

Música Escondida começa com um swing e um riff muito certeiro de guitarras. “Para de abrir os olhos quando eu te beijo” é o desacostume da vez, quando tudo se resolve em deixar rolar. Quando Vi Já Era é um thriller meio faroeste numa montagem preguiçosa de sol depois de uma noite dançando sozinho.

As nove primeiras músicas fazem um corredor, formam um túnel perfeito no universo que serve de viagem sem volta e algumas horas de dedicação pessoal em entender a experiência sonora. Quando o ritmo parece ter caído, a banda nos brinda com Mais Uma Estação. Reflexiva, até doída, mas com uma sensibilidade sobrenatural, que trata do acaso como valor e do amor como a única saída da vida.

A Vera Loca está melhor.

 

07. Toque Dela – Marcelo Camelo

Expectativas. Quando do lançamento eu disse: “Toque Dela mostra um quadro de tudo o que você já sonhou na vida. Ele te balança nesses lugares imaginários a te lembrar do que você sentiu de real. Esse é um disco que foi dito o paulistano do autor e, pensando assim, é perfeitamente possível se ver andando na feirinha da Benedito Calixto, ou escolhendo um contra-baixo novo na Teodoro Sampaio ou ainda comendo um misto quente com suco de caju na Paulista de madrugada. Esse disco te indica que esse que você vê é o seu lugar e portanto deve fazer dele o seu melhor lugar, pra você e pra quem te faz jus entrar também. Esse disco é o equilíbrio que a gente vez ou outra encontra pra conseguir medir o tamanho do que a gente sente conforme os outros dois discos esfregam na nossa cara. Esse disco diz que o caminho é esse mesmo; que você vai lembrar de tudo mas vai saber o que fazer quando acontecer. E ele confirma que no fim do dia (ou no começo dependendo do ponto de vista) o metrô vazio no trajeto de volta pra casa, é o lugar mais tranquilo pra você raciocinar mesmo estando perto demais do que te causa medo”.

Expectativas, primeiras impressões… Acho que todo mundo espera mais do Camelo. Porque nunca parece bastante pra conformar quem esperou pela noção e sensação do conforto, porque a gente sabe e conhece o melhor que o Camelo pode fazer. Embora, nada de diferente possa parecer revolucionário em relação ao passado do cara. Hoje em dia, o foco tá muito mais na Mallu e estar presente. Como se não fosse necessário mudar o rumo da música. Coisa que o cara já fez. Toque Dela tem músicas belíssimas que se entregam perfeitamente o que se espera, porém nunca é satisfatório ser o que é. E quando a coisa gira mais em torno da vida pessoal, o resto não ajuda, mesmo que esse fosse o melhor disco de todos os tempos.

 

06. Agridoce – Agridoce

Olha o Martim pelo segundo ano consecutivo na nossa lista de melhores. Esse projeto de Pitty e Martim remete nas texturas, nos sons, nas letras a um filme escrito pelo Tim Burton. A comparação é retórica na verdade. O movimento acústico aliado a sonoridades espaciais, por assim dizer, causa admiração por todas as faixas do disco. Linhas e riffs de violão inspirados, letras bonitas e Pitty mandando muito bem.

Dançando é uma das músicas tristes mais alegres do mundo. Romeu é uma baita canção de amor. 130 Anos e O Porto exploram a maturidade e a reflexão. A dupla canta também em francês e inglês e o disco fecha com uma regravação média da ótima Please Let Me Get What I Want dos Smiths, mas que não compromete o resultado final. Um disco primoroso.

 

05. Fabio Góes – O Destino Vestido de Noiva

O Fabio é um dos artistas mais emblemáticos da nova geração. Nesse seu segundo disco que fala sobre a vida de marido, pai e homem estão explícitos todos os medos e conquistas de um cara que ousou contar quase que literalmente o que tem vivido. Por isso, o disco ganha status real, baseado em histórias reais. Fator comportamental que convence quem escuta e torna o ouvinte um tipo de álibi ou espectador permanente das histórias.

Tão Alto e Fora do Lugar ressuscita um pouco do começo de carreira de Guilherme Arantes com mais pegada, uma sonoridade mais densa que fisga o ouvinte de primeira viagem. Domingo e as Plantas e Nossa Casa afirmam a vertente caseira do álbum. Tudo tem um tom confessional em meio a levadas lounge, de vento na janela…

Frágil é a grande canção do disco, numa linha mais parecida com Sem Mentira, do primeiro disco. Produção e tudo o mais caprichosamente trabalhados, que exclamam a primeira parte da lista.

 

04. Bom Retiro – Mauro Motoki

O nome do disco parece óbvio, vem do nome do bairro paulistano onde fica o estúdio em que o disco foi gravado. O ludov Mauro Motoki se arriscou bastante nesse álbum. Num primeiro momento Grandes Esperanças tem formato da banda e parece desenhar o resto do disco nessa direção. Um pequeno engano, uma aproximação mais sútil talvez, pra acostumar quem mantem a sonoridade ludoviana na cabeça. Grandes Esperanças é uma porta pra que Meus Fones venha mostrar a que Mauro realmente veio. A jovem guarda é a inspiração e o solo de sax junto os metais da música e ao timbre de guitarra modernizam os anos 60.

Dai em diante o disco tem vida ganha. Bom Mesmo é Ser o Mar tem quase 7 minutos e é uma viagem das mais prazerosas pra quem já se desprendeu da ideia de um disco semelhante a qualquer um do Ludov. Mauro se arrisca sem muita pretensão é faz bonito. O disco merece ser ouvido e considerado um pequeno clássico.

02 Meus Fones by mauromotoki

 

03. Boa Parte de Mim Vai Embora – Vanguart

O Vanguart voltou com tudo e esse disco comporta o tamanho do Vanguart, por vezes tratado como coadjuvante no cenário nacional. O Vanguart prova ser grande não pelo belo disco de lançou mas pela coragem de insistir na identidade de seu som. Isso poderia muito bem passar como obrigação no atual momento da industria, mas pra quem já esteve sob contrato de uma major, o Vanguart se vira brilhantemente sozinho. Toda as músicas desse disco são indispensáveis de qualquer maneira. Não há erro em afirmar a unanimidade.

Se podemos chamar Mi Vida Eres Tu e O Que A Gente Podia Ser de músicas de puteiro num sentido brega, podemos trazê-las pra um patamar mais perto do genial. O que Onde Você Parou e Se Tiver Que Ser na Bala Vai garantem. Já Nessa Cidade e Depressa apelam na razão da existência do disco que na minha imparcialidade descreve a São Paulo que eu conheço.

 

O Kassab dá nota 10 pro disco e eu assino embaixo.

 

02. Canções de Apartamento – Cícero

O Rio de Janeiro continua lindo. Cícero só não faz chover porque a chuva já vem junto com o disco. O cara é brilhante nas composições e no seu jeito de enxergar a utilidade da música. Um disco moderno à moda antiga. Mas isso não importa. Cícero faz feliz quem ouve a sequência magistral de 10 músicas de Canções de Apartamento.

O nome do álbum pode indicar a situação condensada, trancada, quase de cativeiro, por onde as músicas nasceram e se libertaram grandiosas. Tempo de Pipa faz o mundo nascer de novo, enquanto o mundo roda, enquanto a própria canção se ajeita em ser uma canção. Vagalumes Cegos cita dias chatos e céu engarrafado como a visão de quem olha de sua janela e discute Caetano como bobagem e incoerência contraditória da vida e da própria cor duplicada. Ensaio Sobre Ela começa com um trovão e chuva e o violão marcado e tudo é feito pra esperar e preparar o refrão principal e o final apoteótico. Cícero demonstra na faixa 5 toda sua contribuição pro universo parecer um lugar agradável: “Nem vi você chegar, foi como ser feliz de novo”.

Os nomes das músicas revelam detalhes maiores na intenção de cada uma delas. Eu Não Tenho Um Barco, Disse a Árvore é, talvez, a mais significativas. Toda a imaginação e criatividade que pode nascer em um apartamento escreve versos como: “A gente sempre deixa de cuidar do que já tem na mão” e “então tai nosso refrão”.

O disco chega ao fim com Ponto Cego numa batida inquieta, num impulso impaciente que diz que ninguém se importa porque é sexta-feira. E quando todos já estão num carnaval irreparável vem a conclusão em coro cantando “gira mundo cão gira mundo cão”

 

01. Música Vulgar Para Corações Surdos – Harmada

Esse disco é o cúmulo da imparcialidade e da isenção. Eu me identifico com todas as músicas contidas nesse entrave chamado Música Vulgar Para Corações Surdos. E explico a constatação do mínimo: todos os que conheço são esse disco. Todas as imagens são cores das quais eu já enxerguei e com algumas também pintei minha própria Consolação às 3, por exemplo.

Sufoco é literal, seja no disco ou no show, a introdução da bateria irrompe num crescendo parecido a falta de ar. Mas não se explica qualquer outra razão da perfeição que Sufoco traz. Luz Fria é cabaré e tem um dos solos mais geniais já criados. Avenida Dropsie é a que cita Consolação às 3 e só quem dorme com todo esse barulho pode dizer onde fica a avenida Dropsie. Guilherme Weber faz uma introdução textual que prepara o ambiente dos versos de Manoel. Esqueça o barulho.

Algumas canções até soam cansativas na primeira audição, caso de Penitência. Mas dê a todas elas segundas e terceiras chances se for preciso. Música Vulgar Para Corações Surdos trata de um sentimento que não existe e que todos nós sentimos. Não existe nome nenhum pra isso. A gente só pode aproveitar o passeio de Londres até o fim em Corações Surdos, onde o minimalismo do piano é mais avassalador que qualquer orquestra.

“Agora esquece tudo o que eu tentei cantar”

Manoel é gênio e a Harmada é a melhor banda do país. Não, do mundo!

 

+1. Silva EP

Esse é um assunto a parte. Toda a cena independente espera ansiosamente por mais canções de Silva. Suas referências são as melhores possíveis. A expectativa faz a hora e cria em mim um certo sentimento de ilusão. “Não pode cinco músicas serem tão boas assim”. Como um EP, achei que não deveria dessa vez tratá-lo como um disco. Seria injusto até mesmo com as minhas escolhas. Silva carrega uma grande responsabilidade, musicalmente falando e não vou acusá-lo de genialidade precocemente, embora o EP contrarie o que eu digo. O bom e mais seguro nesse momento é esperar, torcendo pra que o cara apareça com outras cinco ou dez maravilhas, como 12 de Maio, Imergir e A Visita.

Aguardamos.

 


Eder Albergoni

pseudo-jornalista, escritor fantasma, compositor frustrado. se eu pudesse, desejaria carregamentos vitalícios de laka, coca-cola e advil.

"sou só um cachorro perseguindo carros. eu não saberia o que fazer se alcançasse um."

para comprar meu livro, clique aqui

me encontre ainda em

cínico e/ou sarcástico e/ou sincero


(Colaborador em São Paulo)

Contato: er.albergoni@gmail.com

http://twitter.com/o_eder


Delicious Digg Facebook LinkedIn reddit StumbleUpon Twitter Email Print Friendly


Leave a Reply

Leia também

  • As Melhores Músicas de 2011
    Pois é, há quem diga que não foi um ano proveitoso musicalmente, que não houve grandes novidades nem motivos pra celebrar a música nacional. Mas no meio de "Ai Se Eu Te Pego" qualquer uma dessas músicas soam como clássicos indispensáveis. P...
  • Vivendo do Ócio canta a saudade da Bahia em música com participação do Agridoce
    O álbum já estava fechado quando aconteceu uma das muitas jams na residência paulistana da banda Vivendo do Ócio. Assim, despretensiosamente e com saudades de casa, surgiu “Nostalgia”. A belíssima música, que traz os versos “Eu só queria to...
  • Agridoce lança álbum no SESC Pinheiros dia 25 de janeiro
    Com o hit “Dançando” entre as 5 músicas nacionais mais tocadas das rádios do Brasil e o clipe desse mesmo single em alta rotação nas TV musicais, Agridoce estreia em São Paulo com ingressos esgotados. Formado pela Pitty e por seu guitarr...

Advertise Here

Matérias